A incompreensão está do lado do aparato repressivo do Estado, que se faz cego ao prender-se a uma lógica militarista e punitivista
A tentativa do Estado de criminalizar e condenar aqueles e aquelas que têm feito da rua o lugar para expressar seu desejo de transformação social fez sua primeira vítima.
Se entre os manifestantes temos uma multiplicidade de classes, raças, corpos e mentes, não por acaso o primeiro enviado ao cadafalso foi um morador de rua negro de 26 anos chamado Rafael Braga Vieira.
Ainda que o discurso oficial seja de guerra a quem faz da tática "black bloc" sua forma de resistência, a seletividade garante a repressão penal apenas em um mesmo grupo estigmatizado.
As prisões em manifestações parecem confirmar esse quadro. A outra pessoa detida é Jair Seixas, o Baiano, igualmente negro e militante pela causa dos sem-teto. Ele teve seu pedido de liberdade negado de forma unânime pela 2ª Câmara Criminal sob o argumento da manutenção da ordem. Para a Justiça, não há espaço para garantias penais mínimas se você é negro e pobre.
Rafael foi condenado a cinco anos de prisão em regime fechado, no dia 2 de dezembro de 2013, por porte de artefato explosivo. Rafael portava duas garrafas de plástico. Uma de água sanitária e outra de desinfetante que conteria álcool. Ele usava o material para limpar seu local de descanso, o chão da rua.
A "prova" de seu suposto crime estaria no depoimento de policiais e em um parágrafo do laudo técnico da perícia, que na maior parte comprova que Rafael era inocente.
Os PMs, segundo a sentença, "são pessoas idôneas e isentas". Os relatos e vídeos de flagrantes forjados não parecem ter sido capazes de derrubar a falsa ideia, predominante no Judiciário, de que a fala de quem efetua a prisão é prova idônea e suficiente para criminalizar.
O laudo técnico, por outro lado, descreve as garrafas como tendo "mínima aptidão para funcionar como coquetel molotov", servindo no máximo "como arma de coação, intimidação". Ainda assim, a conclusão do Judiciário é que a tese defensiva e o interrogatório evidenciam "uma tentativa desesperada de esquivar-se das imputações formuladas". Uma "uma versão pueril e inverossímil".
A pena foi agravada de quatro para cinco anos pelo fato de Rafael já ter sido previamente criminalizado. No entender do julgador, é igualmente necessário que o regime de cumprimento seja o fechado, pois é "adequado para garantir o caráter repressivo e preventivo" da pena.
A falta de compreensão não parece estar naquele que passará seus próximos anos encarcerado em uma cela superlotada sem acesso adequado à alimentação e saúde. Quando há uma condenação por porte de artefato explosivo sem artefato explosivo, segundo laudo pericial, a incompreensão parece estar em outro lugar. Quando se afirma que é preciso que se prenda (de novo) para o sujeito entender que a prisão previne o suposto crime, a incompreensão parece estar em outro lugar. Quando se fundamenta uma condenação na fala de policiais que realizam o flagrante, contrariando o laudo pericial, a incompreensão parece estar em outro lugar.
A incompreensão está do lado do aparato repressivo do Estado. As instâncias se fazem cegas ao prender-se a uma lógica militarista e punitivista que vê na repressão violenta a única forma de se lidar com a demanda popular. Não é por acaso que Amarildos desaparecem e Rafaeis alimentam o moinho de gastar gente do sistema carcerário brasileiro. Quem não entende é quem acredita que essa condenação é neutra e justa. Todos os presos são políticos. Rafael é mais um deles.
RESUMO Livro de autor norte-americano de origem iraniana defende que as pregações de Jesus convocando o "Reino de Deus" sejam lidas de forma mais literal e revolucionária que espiritual. Embora a tese não seja totalmente inovadora, "Zelota" popularizou-se após seu autor, muçulmano, ser atacado em entrevista à TV nos EUA.
REINALDO JOSÉ LOPES
"NÃO PENSEIS que vim trazer paz à Terra; não vim trazer paz, mas espada. Vim trazer divisão entre o homem e seu pai, entre a filha e sua mãe", declara Jesus no capítulo dez do Evangelho de Mateus.
Durante séculos, a maioria dos cristãos interpretou a frase belicosa do Nazareno de modo espiritual. Afinal, se levadas ao pé da letra, as exigências de Cristo para abandonar riquezas, casa, pais e filhos para segui-lo não estão entre os assuntos mais agradáveis para um almoço familiar de domingo.
Para o escritor norte-americano de origem iraniana Reza Aslan, no entanto, está na hora de voltar a ler os versículos em seu contexto original --no qual a ideia era desembainhar uma espada literal, e não metafórica.
Eis, em essência, a premissa de "Zelota: a Vida e a Época de Jesus de Nazaré"[trad. Marlene Suano, Zahar, R$ 36,90, 308 págs.], novo livro de Aslan, 41, que acaba de ser lançado no Brasil: Jesus não era um mestre pacifista, que só pensava em exaltar as virtudes dos lírios do campo e oferecer a outra face.
O principal objetivo do profeta de Nazaré, fomentar a vinda do "Reino de Deus", equivalia a um programa político (e revolucionário), que envolvia a expulsão dos romanos da Palestina e a recriação da antiga e gloriosa monarquia israelita, com o próprio Jesus no trono, sob as bênçãos de Deus.
Daí o nome do livro: zelota (do grego "zelotes") é como os autores bíblicos denominavam os judeus especialmente zelosos das prerrogativas religiosas do Deus de Israel --uma divindade que, ao menos no Antigo Testamento, era capaz de uma aterrorizante fúria militar contra os inimigos dos israelitas. Mais tarde, o termo seria usado para designar uma seita revolucionária judaica.
"Vamos colocar a coisa da seguinte forma: há aqueles que acham que Jesus era total e absolutamente único, diferente de todos os judeus do seu tempo. E há os que acham que, embora ele fosse extraordinário e inovador, ainda assim seu pensamento tinha muito em comum com o de outros judeus. Eu faço parte desse segundo grupo", explicou Aslan, à Folha, em entrevista por telefone.
"Os demais judeus do século 1º d.C. acreditavam que o Messias era um descendente do rei Davi cujo trabalho seria derrotar os inimigos de Israel e implantar o Reino de Deus na Terra. Acredito que essa era a visão que Jesus tinha sobre si mesmo."
Aslan é um acadêmico, com mestrado em teologia na Universidade Harvard e doutorado em história das religiões na Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, mas seu livro conquistou o grande público. Razões alheias ao seu conteúdo contribuíram para que a obra tivesse virado best-seller nos nos EUA.
No dia 26 de julho, dez dias após o lançamento norte-americano do livro, Aslan foi hostilizado por uma entrevistadora do canal conservador Fox News, que exigiu que ele explicasse por que um muçulmano iria querer escrever um livro sobre Jesus. "Ser atacado de falta de jesusidade' por uma âncora da Fox Nex é aparentemente um bom caminho para conduzir seu livro ao número 1 das listas", comentou Adam Gopnik, na revista "New Yorker".
O que a âncora de TV provavelmente não sabia era que o histórico religioso de Aslan é mais complexo do que ela deu a entender. Nascido numa família iraniana secular, ele tornou-se evangélico na adolescência e, mais tarde, retornou à fé de seus ancestrais.
"O ponto mais importante, que muito gente não conseguiu entender, é que o livro não é sobre o cristianismo --Jesus, afinal, não era cristão, mas judeu. Meu tema é o judaísmo de veia revolucionária que existia no século 1º d.C., do qual Jesus era um representante", sustenta Aslan, que hoje é professor da Universidade da Califórnia em Riverside.
O BÁSICO A abordagem do escritor é, em grande medida, uma espécie de "retorno ao básico" na pesquisa histórica sobre a figura de Jesus Cristo.
De fato, um dos primeiros intelectuais a tentar uma interpretação secular para entender quem foi o Nazareno, o alemão Hermann Samuel Reimarus (1694-1768), já defendia que os objetivos de Jesus eram basicamente políticos.
Especialistas contam ao menos três grandes fases de "busca pelo Jesus histórico", a mais recente delas nos anos 1980. Um consenso entre os estudiosos parece quase tão distante quanto era no século 19.
Aslan diz que não há muito mistério sobre o porquê desse aparente fracasso acadêmico. "Fora do Novo Testamento, simplesmente não há nenhum traço de evidências a respeito de Jesus que seja do século 1º d.C.", afirma.
"Creio que até existe algum consenso, mas ele é muito limitado. Podemos dizer que Jesus era um judeu, que iniciou um movimento para os judeus da Palestina, e que Roma o executou como inimigo do Estado. E é só", diz Aslan. "O que conseguimos fazer é pegar esse pouquinho e colocá-lo no contexto do mundo no qual Jesus viveu, sobre o qual sabemos muita coisa. Sempre há a possibilidade de que alguma nova descoberta arqueológica mude esse cenário. Mas por enquanto isso não aconteceu."
INTERPRETAÇÕES Diante de tal pobreza de dados, talvez não seja surpreendente que haja hoje no mercado uma variedade enorme de interpretações sobre Jesus.
Excetuando a ideia de que o personagem nunca tenha existido, sendo apenas uma figura mitológica inventada pelo apóstolo Paulo ou outro membro da primeira geração de cristãos --o que raríssimos historiadores sérios consideram como uma possibilidade--, uma das visões mais influentes é a esposada pelo ex-padre irlandês John Dominic Crossan.
Autor de "Quem Matou Jesus?" [trad. André Cardoso, Imago, R$ 60, 268 págs.], Crossan afirma que Jesus teria sido uma versão judaica dos filósofos cínicos gregos. Em outras palavras, um pensador itinerante que atacava as convenções sociais e convidava seus ouvintes a levar uma vida de solidariedade radical ("comensalidade" é um dos termos técnicos), defendendo que o "Reino de Deus" já estava presente entre os membros dessa confraria.
Outro termo técnico para descrever a posição de Crossan e de outros especialistas é "escatologia realizada", no sentido de que o Jesus histórico pintado por eles não esperava o Juízo Final e a ressurreição dos mortos (e talvez nem a sua própria): a "escatologia", ou seja, a consumação do plano de Deus para o mundo, aconteceria naturalmente entre os que abraçassem a mensagem do Nazareno.
Opõe-se a essa visão um grande campo de pesquisadores, bastante heterogêneo, para quem Jesus era acima de tudo um profeta apocalíptico, ou seja, alguém que previa --provavelmente "para ontem", ainda durante seu tempo de vida-- a intervenção decisiva de Deus na história, libertando o "povo escolhido" de Israel e instaurando uma nova era de justiça e de paz.
Uma das abordagens mais influentes sob essa perspectiva está em um dos quatro volumes da série, ainda não concluída, "Um Judeu Marginal: Repensando o Jesus Histórico" [trad. Laura Rumchinsky, Imago, 468 págs., esgotado], do padre norte-americano John P. Meier.
Ao analisar algo que parece ser tão banalmente cristão quanto a oração do Pai Nosso, por exemplo, Meier argumenta que a expressão "Venha a nós o vosso reino" deve ser lida, nos lábios de Jesus, como nada menos que um pedido para que a intervenção apocalíptica de Deus no Cosmos acontecesse o mais breve possível --o "reino" nada mais seria que esse domínio restaurado do Senhor.
Aslan pende mais para o segundo campo, embora sua ênfase política o distinga de Meier, de quem se declara admirador. "Não acho que eu esteja explorando algum terreno realmente novo na questão", pondera. "Consegui apenas reunir os principais dados e argumentos de uma maneira coerente e que pode ser compreendida pelo leitor não especializado."
Apesar da modéstia, Aslan teve peito para defender posições controversas mesmo para os padrões da pesquisa sobre o Jesus histórico. Ele vê a célebre "purificação do Templo" (episódio no qual Jesus expulsa cambistas e vendedores de animais do local mais sagrado de Jerusalém) como um ataque político direto à corrupção da elite sacerdotal judaica, aliada a Roma, coisa com a qual muitos outros estudiosos concordam.
Mas vai além e argumenta que a passagem na qual Jesus diz "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" é, na verdade, uma frase sutilmente subversiva. E parte de uma explicação filológica: o "dai" seria tradução do verbo grego "apodidomi", ou "devolver". Em vez de dizer que é certo pagar imposto para os romanos, tema da frase, Jesus estaria dizendo simplesmente que se deve devolver o dinheiro romano ao imperador e retomar o que pertence a Deus, ou seja, a Terra Santa de Israel.
Da mesma forma, a ideia de "oferecer a outra face" seria aplicável apenas a irmãos judeus, não a pagãos ocupando Jerusalém, ou a qualquer outro não judeu.
"O judaísmo era tudo o que Jesus conhecia e pregava. Ele mesmo afirmou que não veio para abolir nem uma só letra da Lei de Moisés", diz Aslan. "O mandamento de amar ao próximo já estava presente no judaísmo, mas valia apenas para membros da comunidade de Israel."
Pergunto se, sob essa perspectiva, Jesus e outros profetas e revolucionários judaicos do século 1º d.C. (alguns dos quais acabariam expulsando os romanos temporariamente entre 66 d.C. e 70 d.C., até serem esmagados) poderiam ser comparados aos muçulmanos que defendem a jihad hoje.
"Certamente em nenhum momento Jesus pregou a violência contra não combatentes", afirma Aslan. "Mas, é claro, ao longo da história, sempre houve o uso da religião como arma contra potências consideradas opressoras ou em favor da justiça social."
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"Meu tema é o judaísmo de veia revolucionária que existia no século 1º d.C., do qual Jesus era um representante", sustenta o escritor Reza Aslan
Um grande campo de pesquisadores, ao qual Reza Aslan pende, vê Jesus como profeta apocalíptico. "Não acho que esteja explorando terreno realmente novo", diz ele.
Sarah Young pode ser difícil de encontrar, mas seus livros estão por toda parte.
"O Chamado de Jesus", de Young, é uma coletânea de 365 textos curtos de devoção entrelaçados com trechos da Bíblia.
Desde que foi lançado, em 2004, o livro já vendeu 9 milhões de exemplares em 26 línguas. No primeiro semestre de 2013, vendeu mais exemplares que "Cinquenta Tons de Cinza". Young já escreveu outros dois livros de devoção desde então, além de livros voltados para crianças e adolescentes e uma Bíblia com o tema "Jesus está chamando".
O que mais impressiona é que Sarah Young virou uma marca rentável apesar de praticamente não conceder entrevistas nem comparecer em público como autora. Prejudicada pela doença de Lyme e outros problemas de saúde, ela geralmente sai pouco de casa. Quase não há fotos públicas da autora, que se nega a falar ao telefone.
Assim, se um repórter quiser lhe perguntar sobre seu trabalho -que vem provocando polêmica por ser escrito em primeira pessoa na voz de Jesus, como se Cristo tivesse feito novas revelações diretamente a Young-, as perguntas devem ser enviadas por e-mail, e a autora as responderá por escrito.
Uma edição recente da "Christianity Today" trouxe um longo artigo sobre Sarah Young, citando vários teólogos que expressaram preocupações com seu trabalho. "Os leitores críticos querem saber: será que Young pensa realmente que Jesus está falando diretamente com ela?", escreve Melissa Stefan, autora do texto.
Kriss Bearss, responsável pelos livros de Young na editora Thomas Nelson, disse que os críticos da autora não entendem as nuances do projeto dela. "Young não diz que Jesus fala com ela", explicou Bearss.
"Acho que ela foi bastante clara a esse respeito nos prefácios de seus livros. Ela não pensa, de modo algum, que seus textos sejam sagrados ou que ela tenha recebido novas revelações."
Na introdução de "O Chamado de Jesus", Young escreve: "Decidi ouvir Deus com a caneta na mão, escrevendo o que acreditava ser o que Ele estava dizendo".
Sarah Young se formou no Wellesley College, no Massachusetts, em 1968, é casada com um missionário presbiteriano e tem dois filhos e dois netos. Está no processo de se mudar da Austrália para o Tennessee.
Na teologia protestante tradicional, as revelações de Deus cessaram desde os tempos bíblicos. Pessoas que alegassem receber ensinamentos novos diretamente de Deus estariam se declarando profetas. Para uma presbiteriana como Sarah Young, isso é proibido. Mas Young disse que está fazendo algo diferente.
"Concordo que a revelação parou, na medida em que a Bíblia está completa", escreveu Young. "Mas o que eu faço é escrever textos de devoção. Para isso, peço a Jesus que guie minha mente quando passo tempo com Ele -para me ajudar a pensar os pensamentos d'Ele."
Em certo sentido, o que ela faz não é nada de novo. Existe uma longa tradição de cristãos que interpretam a presença de Deus na vida das pessoas. "Os textos de devoção são um gênero fundamental na categoria de escritos religiosos do setor editorial cristão", disse Lynn Garrett, que cobre livros de religião para a "Publishers Weekley".
O trabalho de Young é incomum por usar a voz de Jesus na primeira pessoa, e é fácil perceber como isso pode incomodar alguns cristãos tradicionalistas. Mas, quando se lê um número suficiente dos textos da série, o argumento da autora de que Jesus não está falando se torna mais plausível.
Aparecem metáforas bizarras, que não soam como algo que poderia ser dito por Jesus: "Seus pensamentos cercam o problema como lobos famintos", diz um texto devocional em "O Chamado de Jesus". E há o jargão contemporâneo de textos sobre bem-estar: "Sua capacidade de concentração pode ser prejudicada por estresse e fadiga", lemos em "Jesus Today".
Esse livro, posterior a "O Chamado de Jesus", foi escolhido o Livro Cristão do Ano de 2013. Há um app "Jesus chamando" para smartphones e há audiolivros, agendas e outros produtos.
Quer Sarah Young esteja falando como Jesus, sobre Jesus ou com Jesus, sua voz está sendo ouvida. Se não literalmente, em telas e páginas -milhões delas.
21. Invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus.
22. Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança.
23. Contra estas coisas não há lei.
24. E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências.
25. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.
26. Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros.